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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Ser ou não ser...

Nos últimos dias me deparei com duas declarações parecidas em contextos diversos que complementam algumas questões que venho levantando e gostaria de tratar aqui.

A primeira foi do autor Junot Díaz, dominicano-americano que ganhou o prêmio Pulitzer 2008 com o romance "A vida breve e bizarra de Oscar Wao" que a Editora Record lançará em breve. Em entrevista ao Estadão,  Díaz levanta uma lebre cada vez mais recorrente nos tempos atuais que é a da condição do imigrante "latino", ou "hispano", a minoria mais numerosa nas terras do Tio Sam. Segundo ele, os brasileiros não se reconhecem nessa categoria e "fazem tudo para deixar claro que não são latinos", fato que não me espanta. O mais interessante da análise dele é que mostra como essa atitude acaba sendo prejudicial para a enorme massa de imigrantes brasileiros: "Num momento de vulnerabilidade como agora, quando a economia despencou, estão deportando brasileiros a rodo. Eles não construíram coalizões, estão isolados. Este solipsismo da natureza da identidade brasileira no contexto dos Estados Unidos, onde o que dá certo é construir redes, coletivos de grupos, voltou-se contra os brasileiros. Você vê isso em Massachusetts, a comunidade brasileira está sendo visada e não tem aliados."

É interessante  o modo que ele coloca a questão das redes (teias) como elemento não só de sobrevivência como de pressão de uma comunidade imensa em meio a uma sociedade hostil. E é também interessante notar como o resto dos países "hispânicos" se confundem numa generalização absoluta, tornando-se todos iguais. Anos atrás, no ótimo filme "Un día sin mexicanos", de Sergio Arau, que simula um dia em que todos os latinos somem da Califórnia e o caos se instala, havia uma cena em que a empregada hondurenha é tratada como mexicana e o patrão, impaciente, afirma: "é tudo a mesma coisa". Sabemos que do lado de lá é mesmo. Há uma aparente união entre os "chicanos" que os tornam quase um objeto comum não-identificado. Daí os estereótipos e a pecha pejorativa da comunidade, que me leva à outra citação que li hoje do ator cubano-americano Andy García. Diz ele"Todo el mundo sabe que amo mi cultura y siempre he dicho que soy cubano, pero yo no me considero un actor latino, ni quiero que me consideren ni me clasifiquen de esa manera. (...) A Dustin Hoffman no le dicen: es un gran actor judío americano. No creo que la herencia tenga nada que ver con la actuación, en realidad todos somos actores."

O grande desafio do nosso tempo é repensar essa imagem do latino, hispânico, chicano, cucaracha, sudaca, ou seja lá que nome for. Acredito no papel dos atores culturais como agentes transformadores, capazes de apresentar outros fios da teia. Afinal, muito dessa imagem é reafirmada por cada um de nós, às vezes até de maneira inconsciente. Mais uma vez é Díaz que entra com uma boa colocação:  "seja o México ou Santo Domingo ou o Brasil, quase sempre exportamos expectativas pré-empacotadas, turísticas. Então a nossa 'intelligentsia', nossos artistas, nossos excêntricos, as pessoas que são cerebrais e interessantes não fazem parte do pacote exportado mas elas existem e são muitas."

Esperemos, pois o livro de Díaz por aqui para nos deparar com algo a mais dessa fértil e variada e desconhecida 'intelligentsia'.
 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Made in Peru

Adorei o comentário feito por meu amigo Bernardo no post sobre a Bienal Ibero-Americana de Design pois ele abre para um tema que estava querendo abordar aqui. Ele sugere um artigo publicado no Los Angeles Times sobre o chef peruano Gastón Acurio. E me pergunta se a culinária não seria também um meio para se conhecer esses outros lados da América.

Sem dúvida que sim, e há muito venho me interessando por algumas áreas que ficam na fronteira entre criação e indústria, arte e comércio. Na verdade, é grande o escopo do que se convencionou chamar das "indústrias criativas". E a gastronomia, assim como o design e a moda, fazem parte desses meus centros de interesse que gostaria de tratar aqui.

Por ora, queria me limitar a alguns comentários sobre o Gastón Acurio, renomado chef peruano, que difundiu pelo mundo a ceviche e possui restaurantes em Lima, Madrid, San Francisco, México, Bogotá, Caracas, Panamá, Quito, Santiago e Buenos Aires.

Conheci o nome dele meio por acaso há pouco tempo quando estava pesquisando sobre o tema "imagem-país" para meu trabalho final do MBA em gestão cultural da FGV-RJ. Cheguei a um discurso que ele fez em 2006 onde coloca com muita pertinência alguns conceitos com os quais me identifico. O artigo dos Los Angeles Times reafirmou o importante lugar que ele ocupa nessa resignificação do continente. 

Acho que vale reproduzir aqui um trecho do tal discurso, que pode ser lido na íntegra aqui:

"Los ciudadanos de todos los países industrializados han entendido que la gran riqueza no está solo en la elaboración de productos genéricos, sino en la creación de marcas cuyo reconocimiento en términos de calidad les permite expandirse por todo el mundo. Por ello, Suiza compró cacao y oro, y sus ciudadanos los convirtieron en chocolates Nestlé y en relojes Rolex; Japón y Corea compraron minerales y su gente los convirtió en Toyota, Nissan o Samsung; y en épocas aún más recientes, el norteamerican
o Howard Shultz compró café por el mundo y se lo devolvió convertido en Starbucks.

Pues bien, la gastronomía peruana hasta hace muy poco ha sido justamente eso: un gran recurso. [...] Sin embargo, nuestra gastronomía no es afortunadament
e solo un gran recurso, sino una suma de cocinas y conceptos que, en muchos casos, aún esconden un gran potencial. [...] Detrás de nuestra entrañable cocina criolla, de nuestras pollerías, de los chifitas de barrio, de la cocina novoandina, de las picanterías arequipeñas, de los anticuchos, de los sánguches, de la cocina nikkei o de las cebicherias, existen oportunidades inmensas de crear conceptos que trasciendan su ámbito local para convertirse en productos, productos peruanos de exportación que no solo aspiren a codearse con conceptos ya instalados globalmente como pizzerías, hamburgueserías, sushi bares o taquerías mejicanas, sino que, además, generen al Perú enormes beneficios tanto económicos como de marca país."
 (grifos meus)

Esse discurso vem de encontro com o que foi amplamente discutido na BID, nos âmbitos de design e moda: hoje quando falamos em algum produto "made in Japan" ou "made in German" está implícito no termo informações sobre o produto: se é de boa ou má qualidade, se o forte é o design ou a tecnologia, ou ainda os preços baixos como no caso do "made in China". Mas quando se fala de algo "made in Peru" ou "made in Guatemala", que informação recebemos? Praticamente nenhuma, ao menos aqui no Brasil. Não sabemos avaliar se um artefato made in Panamá é melhor ou pior do que um made in Bolívia, por exemplo. Ou estou errada? O que esses nomes depreendem como informação? Tirando os vinhos argentinos e chilenos, que já se posicionaram muito bem por aqui, e um ou outro produto típico, em geral os outros países carregam uma carga bastante pejorativa - "novelão mexicano", "whisky paraguaio"!!! E vários outros não remetem a absolutamente nada...

Vejo que há no Peru uma "movida" grande em relação a essas questões. Além do trabalho do Gastón na culinária, na moda e no design também há iniciativas parecidas, como por exemplo o trabalho do pessoal da Peru Moderno, uma grife de roupa urbana criada pelas estilistas Ena Andrade e Chiara Macchiavello, que tem como pano de fundo a chamada cultura chicha, conceito importante para se entender o Peru atual. A cultura chicha é um movimento de "fusión" entre o popular e o erudito, é a releitura urbana das culturas dos andes, da costa, das ruas promovendo um diálogo inédito no país e evidenciando o que eles chamam de "realismo estético andino". 

São iniciativas como essas e tantas outras que poderão alterar pouco a pouco a visão estreita e reducionista que muitos temos desses países. Não é a toa que os restaurantes do Gastón ainda não chegaram no Brasil! Tomara que em breve isso aconteça e que essa "árvore absurda, partida em duas frondes", como tão bem definiu Gabriela Mistral as duas Américas, ganhe cada vez mais galhos entrecruzados.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Rescaldo de Guerra Fria

Na ocasião da posse do novo presidente dos Estados Unidos Barack Obama, o professor de relações internacionais da Universidade San Andrés, de Buenos Aires, Juan Gabriel Tokatlian fez uma interessante análise na BBC Brasil: ele considera que a América Latina é o único lugar do mundo em que continua a haver a Guerra Fria, e que isso seria evidenciado pelo embargo a Cuba, pela persistência da guerrilha na Colômbia, com as Farc, e pelo governo de Hugo Chávez na Venezuela. O argentino considera Obama uma peça fundamental para o desmonte final desse rescaldo de Guerra Fria. 

Essa análise é interessante porque retoma justamente uma questão aqui já colocada que é o anacronismo ainda vivido pela região no mundo. A imagem geral que se tem da América Latina, agravada pelo apodo "latina", mudou muito pouco do período da Guerra Fria para cá: miséria e injustiças por um lado, autoritarismo e guerrilhas por outro, mas sem nunca perder uma alegria genuina, fruto do sol, do calor, do carnaval!

Obama falou em seu discurso de posse na necessidade de "reconstruir a América". Pois alargando um pouco as fronteiras, vejo a possibilidade de se poder reinventar a 
América-Continente, atribuindo-lhe novos significados, e conquistando assim novos valores, caros à economia e ao desenvolvimento da região.