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domingo, 15 de fevereiro de 2009

La Teta Exultante!!!

Este carnaval terei uma razão a mais para comemorar: acabo de saber que o Urso de Ouro deste ano foi para o filme La Teta Asustada, do qual já havia falado aqui antes. Estou exultante de felicidade não apenas pelo fato da diretora Claudia Llosa ser uma amiga muito querida, com quem sinto uma conexão e sintonia de pensamento muito grande, mas sobretudo por atribuir a ela, como já foi dito aqui, um papel chave na atual cultura latino-americana. Seu jeito peculiar de contar histórias reinventa dramas e tradições, brilhos e saudades. É a nova américa se desenhando talvez sem se dar conta disso.
E por trás do talento de Claudia, deixo também meu reconhecimento ao produtor do filme, José María Morales, da Wanda Films. Morales se converteu nos últimos anos em uma espécie de midas do cinema latino, co-produzindo muitos dos grandes filmes das safras recentes, como o Abraço Partido, do argentino Daniel Burman, também premiado em Berlim. 
Ao lado de Central do Brasil (Urso de Ouro em 1998) e de Tropa de Elite (Urso de Ouro em 2008), La Teta Asustada compõe a tríade de premiação para latino-americanos em toda a história da Berlinale. 
Mas o mais emocionante de tudo foi ver a bela atriz Magaly Soler fazendo seu discurso de agradecimento em quéchua, em Berlim. É a própria personificação de tudo o que viemos discutindo aqui, a síntese do regional com o internacional, da tradição com a inovação. É sem dúvida um momento histórico de grande beleza e merecimento.
Razão de sobra para se comemorar em grande estilo!


domingo, 8 de fevereiro de 2009

Ser ou não ser...

Nos últimos dias me deparei com duas declarações parecidas em contextos diversos que complementam algumas questões que venho levantando e gostaria de tratar aqui.

A primeira foi do autor Junot Díaz, dominicano-americano que ganhou o prêmio Pulitzer 2008 com o romance "A vida breve e bizarra de Oscar Wao" que a Editora Record lançará em breve. Em entrevista ao Estadão,  Díaz levanta uma lebre cada vez mais recorrente nos tempos atuais que é a da condição do imigrante "latino", ou "hispano", a minoria mais numerosa nas terras do Tio Sam. Segundo ele, os brasileiros não se reconhecem nessa categoria e "fazem tudo para deixar claro que não são latinos", fato que não me espanta. O mais interessante da análise dele é que mostra como essa atitude acaba sendo prejudicial para a enorme massa de imigrantes brasileiros: "Num momento de vulnerabilidade como agora, quando a economia despencou, estão deportando brasileiros a rodo. Eles não construíram coalizões, estão isolados. Este solipsismo da natureza da identidade brasileira no contexto dos Estados Unidos, onde o que dá certo é construir redes, coletivos de grupos, voltou-se contra os brasileiros. Você vê isso em Massachusetts, a comunidade brasileira está sendo visada e não tem aliados."

É interessante  o modo que ele coloca a questão das redes (teias) como elemento não só de sobrevivência como de pressão de uma comunidade imensa em meio a uma sociedade hostil. E é também interessante notar como o resto dos países "hispânicos" se confundem numa generalização absoluta, tornando-se todos iguais. Anos atrás, no ótimo filme "Un día sin mexicanos", de Sergio Arau, que simula um dia em que todos os latinos somem da Califórnia e o caos se instala, havia uma cena em que a empregada hondurenha é tratada como mexicana e o patrão, impaciente, afirma: "é tudo a mesma coisa". Sabemos que do lado de lá é mesmo. Há uma aparente união entre os "chicanos" que os tornam quase um objeto comum não-identificado. Daí os estereótipos e a pecha pejorativa da comunidade, que me leva à outra citação que li hoje do ator cubano-americano Andy García. Diz ele"Todo el mundo sabe que amo mi cultura y siempre he dicho que soy cubano, pero yo no me considero un actor latino, ni quiero que me consideren ni me clasifiquen de esa manera. (...) A Dustin Hoffman no le dicen: es un gran actor judío americano. No creo que la herencia tenga nada que ver con la actuación, en realidad todos somos actores."

O grande desafio do nosso tempo é repensar essa imagem do latino, hispânico, chicano, cucaracha, sudaca, ou seja lá que nome for. Acredito no papel dos atores culturais como agentes transformadores, capazes de apresentar outros fios da teia. Afinal, muito dessa imagem é reafirmada por cada um de nós, às vezes até de maneira inconsciente. Mais uma vez é Díaz que entra com uma boa colocação:  "seja o México ou Santo Domingo ou o Brasil, quase sempre exportamos expectativas pré-empacotadas, turísticas. Então a nossa 'intelligentsia', nossos artistas, nossos excêntricos, as pessoas que são cerebrais e interessantes não fazem parte do pacote exportado mas elas existem e são muitas."

Esperemos, pois o livro de Díaz por aqui para nos deparar com algo a mais dessa fértil e variada e desconhecida 'intelligentsia'.
 

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Latina???

A América Latina é o único caso de continente adjetivado do planeta! É uma invenção historicamente datada, que se consagrou no pós-guerra. O historiador da UNICAMP, Héctor Bruit, no artigo "A invenção da América Latina" faz um interessante histórico do termo, mostrando como, embora já fosse utilizado desde meados do século XIX, num contexto bastante preciso, era polêmico e pouco difundido, e foi adotado como conhecemos hoje em 1948, com a criação da ONU e do CEPAL. 

De fato,  na época do Pensamento da América, o jornal que deu origem ao meu livro, não se falava em América Latina. Falava-se em Américas, no plural, ou diferenciava-se geograficamente em "do Norte", "Central" e "do Sul". Ou em Pan-América, termo que vinha do início do século, mas que entrou em moda com a eclosão da Guerra. Mas América Latina é uma definição  geo-política, ideológica, usada para diferenciar o mundo desenvolvido do subdesenvolvido. E essa definição deixou muitas marcas. Muitas fantasias utópicas, sonhos e revoluções, marcas de tortura e de miséria inclemente. 

Já é hora de criar uma outra cara para esse lugar. Quem sabe um outro apodo, mais próprio ao século XXI e ao mundo globalizado? Algo que nos tire do gueto ideológico em que nos metemos há 50 anos, que sem dúvida rendeu muitos frutos, mas que já passou do tempo... Hoje, as veias abertas são outras...